quarta-feira, 4 de novembro de 2009

TPM

Ok, meninos, vocês venceram. Eu, mulherzinha, escritorazinha, mortalzinha, admito: tenho TPM. Sim, também carrego nas costas essa sigla que incha, cansa, lesa o cérebro, dói, irrita e transforma o mais cor-de-rosa dos mundos em uma solitária escura e enlouquecedora. Com um cruel detalhe: nessa solitária também são jogados maridos inocentes.
A mulherzinha aqui, muito muderna, lida, analisada e dada às mais diversas relativizações, não acreditava muito nas três letras perigosas e sempre achou muito machistas as piadas a respeito. No fundo tinha vontade de, com os olhos já vermelhos de chorar porque acabou o cotonete ou porque não conseguiu encontrar um par de meias, inflar o peito e urrar com alguma saliva projetada: “TPM é o cacete, seus merdas!”
Mas no domingo passado, esperando mais uma vez o meu entrevistado, que costuma se atrasar, comecei a folhear o meu caderno de anotações com um insuspeitável mau humor – logo atribuído, logicamente, ao atraso do tenente. Cumprir horário, afinal, não é a primeira coisa que um militar aprende, gente?
Então eis que esbarro no seguinte esboço de poesia, escrito em letrinha miúda:

Mau humor da porra
Porra nenhuma
se resolve
Saco de filó
E te olho ó
de lado
Sobrancelha levantada
desconfiada
cansada
e só.

Achei tudo muito familiar. Era a mesma sensação que eu estava sentindo naquele momento, e a data não me deixava nenhuma rota de fuga: tal desabafo pseudo poético havia sido escrito há, adivinhem, um mês. Merda.
Pronto, falei. Mas e daí? Tão olhando o quê? Nunca viram? Ninguém aí tem mais o que fazer, não?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O perigo da curva

Eu sei que vocês não estão lá muito interessados, mas na tabula rasa desse blog já estava a intenção de explicar o que vem a ser a vidinha de um escritor freelancer. Coloco assim no masculino porque pressuponho um grupo mais ou menos homogêneo de tal espécie, que englobaria indivíduos de todos os gêneros e subgêneros interessados em viver da letra. É claro que assim me engano. Afinal só posso falar de minzinha, mulherzinha, escritorazinha de bastidores. Mas o fato é que estou aqui pra isso, gente, pra explicar qual é a dessa mulher estranha.

Vejamos. A mulher estranha escreve dois livros ao mesmo tempo porque não vive de luz e porque a ração do papagaio está cada vez mais cara. Em sua defesa, no entanto, explico que ela tem o cuidado de separar os projetos por fases, assim: enquanto estão sendo feitas as entrevistas de um livro, o outro, com depoimentos já colhidos, pode ser escrito. Jamais dois livros, literalmente, serão escritos ao mesmo tempo. Tal insanidade até já aconteceu, mas foi por um breve período de tempo que a memória dessa mulher, muito seletiva e precavida, tratou de bloquear.

Então, enquanto o livro do gentleman de Ipanema já está sendo escrito aos poucos, o projeto do militar ainda está na fase das entrevistas semanais. Nesse meio tempo a assistente que transcrevia as entrevistas deu no pé por motivos nobres como um salário seguro, portanto as entrevistas, em gordos arquivos de áudio, seguem se acumulando no computador enquanto a mulher desamparada não arruma outra boa alma para transcrever tudo. No livro da bela menina, por exemplo, só para vocês terem uma idéia, ela conseguiu a proeza de reunir 800 páginas de depoimento. Sim, 800, não há aqui nenhum zero digitado a mais por distração. Ter alguém para transcrever tais testamentos é uma das necessidades primordiais de um escritor de dois livros, portanto, isso se ele ainda fizer questão de ter luxos como dormir e tomar banho. E paga-se bem por isso, meninos.

Mas eis que, por motivos irritantes como a imprevisibilidade da vida, um projeto está encostando no outro e as pole positions estão sendo disputadas perigosamente. O cronograma do livro do gentleman de Ipanema, por falta de brechas na agenda do mesmo, já furou. Era para o livro estar pronto a essa altura e tem-se apenas um terço dele escrito. O final do ano está chegando e a mulher começa a sentir as pontadas do desespero: sim, aquela hora grave em que os dois vão se encontrar na curva está cada vez mais possível e próxima. Até o final do ano as entrevistas com o tenente estarão terminadas e aí, crianças, aí o buraco é mais embaixo. Aí seria hora de pensar em instituições militares e não em estilo de vida carioca.

Nessas horas, entretanto, o desespero parece tornar tudo muito coerente. Hoje, depois de cansar a vista olhando para o computador na espera de um email que poderia definir a vida, a mulher decidiu fazer um trabalho de campo. O que, para o primeiro projeto, significaria andar pelo calçadão e olhar o povo se curtindo a beira-mar. Uma delícia, vocês vão dizer. Sim, uma delícia. Tão delicioso que a consciência até pesa e a mulher coloca, na mochila, pelo sim pelo não, um livro sobre o espírito militar. Então, depois de olhar a praia e tentar identificar alguns personagens e rabiscar alguma coisa no moleskine que ganhou de presente, a mulher com dupla personalidade começa a ler sobre a formação de oficiais do Exército. O mundo de lá e o mundo de cá.

É claro que tudo então se confunde e ela se pega imaginando quais seriam as regras rígidas de disciplina da praia e qual o savoir-faire dos militares. Fica pensando se a liberdade não está em limites bem definidos e não no elástico conceito de individualismo que abarca tudo (tudo pode) menos o cuidado com o outro, com o companheiro. Se não existe pelotão nem patrulha, por que o interesse pelo conjunto, afinal? Se não há trauma coletivo palpável, qual o impulso da camaradagem?

Depois de tomar uma água de coco, a mulher se recupera da confusão mental e volta pra casa com um riso de canto de boca. Estou dizendo, negada, essa mulher não bate nada bem.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Brasileiros e nem tão anônimos assim

E não é que a convocação às letras surtiu efeito?
Gabriela Gonçalves, de Vitória, mandou quase uma autobiografia, oito páginas carregadas de reflexão e coragem, e escreveu assim no email que trazia em anexo trechos da sua vida:

“Estou escrevendo há horas, não fique completamente satisfeita, mas fiz um rascunho dos meus 27 anos. Legal isso, chorei em vários trechos, relembrei fatos e filosofei comigo. Se a história não valer a pena, vai valer a experiência vivida hoje, só posso agradecer pela oportunidade.”

Eu é que agradeço, gente! Foi bonito demais ver brotar uma história assim de pronto, no impulso dos dedos correndo pelo teclado. O resumo da vida de Gabriela, hoje grande executiva e autora de blog, é o primeiro texto do baú. Está guardado pelo Reciclando Mentes com todo o carinho e cuidado.
Para quem ainda não sabe, o instituto recém criado é pautado no construcionismo social, conjunto variado de contribuições teóricas que tem ganhado espaço na psicologia nas últimas décadas, inicialmente na psicologia social mas tendo se espalhado também para outros campos como o da psicoterapia. Seus principais autores afirmam que o construcionismo se articula em torno de quatro idéias centrais: a ênfase na especificidade cultural e histórica das formas de conhecermos o mundo; o reconhecimento da primazia dos relacionamentos na produção e sustentação do conhecimento; a interligação entre conhecimento e ação; e a valorização de uma postura crítica e reflexiva.
A primeira das quatro idéias foca a atenção no contexto, na nossa janela de mundo, na nossa bossa. A segunda, muito importante, fala da importância de se olhar com calma e fundo para o outro, prática que, numa sociedade cada vez mais individualista, parece infelizmente estar fora de moda. A intenção do projeto é justamente resgatar esse olhar e assim trabalhar pela redução da violência, levando em conta as outras duas premissas, que basicamente dizem que não basta saber: é preciso pensar sobre o saber para depois agir.
Na prática, isso significa formar gestores de ONG em terapia narrativa e outras ferramentas capazes de transformar histórias sociais. No coração, isso quer dizer parar de pensar que nada tem jeito, deixar de lado a casca do doente e olhar a doença por outros ângulos, com gana de tirá-la do foco e dar espaço à vida. Quer dizer também, no final da linha, evitar o bombardeio de helicópteros.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Anônimos e brasileiros


Já me disseram os búzios que sou de Oxalá. Oxalá, me explicou um amigo que sabe tudo de candomblé, é o pai maior, que tem a energia da paz e da criação e está sempre em busca do respeito. É muito bom ser de Oxalá, diz ele. Mas, como tudo na vida, também tem sua desvantagem. É que Oxalá é meio lento, é do ar, da dinâmica rarefeita do devagar quase parando. Quando soube disso fiquei ainda mais baiana por dentro, meio chocha, pensando “pô, logo eu, ex-jornalista da ativa, cumpridora de prazos impossíveis?”. É, neguinha, você mesma.
Neste sábado tive a confirmação. Devo ser meio marcha lenta mesmo, ao menos em alguns níveis, ou naqueles mais importantes. Na verdade, como diria uma amiga minha, meu ritmo é praticamente o de um cágado em dia de sol. Talvez até Caymmi parecesse um estressado ao meu lado. Anteontem, ao ler o Prosa & Verso, tive a nítida sensação de ter perdido algum bonde enquanto dormia de olhos abertos, pensando na morte da bezerra (ninguém até hoje me disse do que ela morreu, gente), sonhando acordada no mundo da lua. Estava lá, no subtítulo: “O teórico francês Philippe Lejeune fala sobre a associação criada para ler e comentar autobiografias de gente comum”.
Peraí, essa idéia era minha! Ô meu deus, que desânimo, velho, que preguiça. O que posso fazer se tiveram as minhas boas idéias antes de mim?
Depois que lancei o livro da Ana, fiquei muito impressionada com a quantidade de pessoas que me procuraram querendo contar suas histórias. Eram histórias de gente comum, e é impressionante como elas podem ser mais interessantes do que a ficção. Algumas mais outras menos, é claro, mas tem sempre um fio que pode ser puxado, sempre uma esperança de publicação. Sem querer desperdiçar tais histórias, pensei em criar para a minha editora o projeto de um selo baseado exatamente nisso, em histórias de gente comum, de anônimos que tinham muito a dizer e a ensinar. O nome do selo seria algo como Anônimos ou mesmo Histórias de gente comum, e poderia ser organizado por temas como Drogas, Amor, Superação etc. Devo ter pensando nisso por alguns dias e depois bateu aquela dúvida, aquela insegurança, aquele “será que é bom isso?”, e acabei deixando pra lá. Em defesa de Oxalá, também é verdade que deixei o assunto de lado porque me envolvi em outros trabalhos e coloquei então a idéia na gaveta, à espera de uma brecha.
Mas agora vejo que o erro, ou o descuido, foi ter pensado nessa idéia comercialmente. A sacada do francês é não só muito mais coerente como mais proveitosa: a Associação pela Autobiografia e pela Preservação do Patrimônio Autobiográfico (APA), instituição fundada na cidade de Amberieu-em-Bugey em 1992, tem a linda missão de receber, ler, comentar e preservar todo e qualquer escrito autobiográfico que lhe seja encaminhado. Entre cartas, diários e narrativas, recebem cerca de 180 textos por ano. A idéia foi inspirada numa localidade italiana que se autonomeou Cidade do Diário. Anualmente é promovido por lá um concurso nacional de escritas autobiográficas, o que engorda o acervo que já conta com mais de cinco mil itens. Quando conheceu a cidade, o professor Lejeune, então já autor de O Pacto Autobiográfico (traduzido pela UFMG), ouviu o clique e decidiu levar a idéia para a França.
De certa forma, ainda sem saber bem como, é o que o instituto Reciclando Mentes vem ensaiando fazer nos trópicos. Já falei sobre ele aqui e quem quiser conhecer o trabalho baseado em terapia narrativa pode acessar o site ou ler o post Reciclando.
Mas saber que escrevi um projeto para a instituição não me faz perder a sensação de que preciso, ai ai, recuperar o tempo perdido. Imaginem a quantidade de narrativas incríveis que não estão por aí escondidas, nas favelas, nos subúrbios ou nas varandas da zona sul, nas casas quietas de idosos imigrantes, nas ruas. O diários não escritos do Brasil dariam um belo compêndio da história latino americana.
Então, crianças, para retomar o pique, estalar os dedos, arregaçar as mangas e enxotar o pai maior marcha lenta, convido todos a me mandarem cartas, diários, pequenos textos autobiográficos, argumentos, sinopses baseadas em histórias reais, o diabo. O meu compromisso será recolher e organizar todo o material e trabalhar, junto ao Reciclando Mentes, numa compilação de vida e forma brasileiras.
Falo sério. Abram as gavetas. Quem estiver interessado que se manifeste, sou toda ouvidos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Rebuliço do bom




Já contei que comprei uma penca de livros de filosofia na Bienal. Estou encarando Hume e, acreditem se quiser, é menos difícil do que parece. Outro dia me perguntei o porquê disso tudo e dois segundos depois já sabia a resposta. Estou mergulhando nisso porque vivo. Porque respiro.
Durante dois anos fiz parte de um grupo de filosofia e o que aprendi lá, entre vinhos sorvidos em canecas e gargalhadas nervosas causadas por loopings mentais, valeu tanto quanto o meu mestrado. Lá experimentei, de certa forma, virar as chaves do cérebro, dar linha aos neurônios, empurrar a caixola para rumos nunca antes explorados. E o que acontece é que a coisa toda causa um rebuliço do bom, daqueles que deixam a gente com fome de vida apesar, ah, apesar de toda a angústia que faz parte do jogo – eu não disse que entrei para a igreja, gente, disse que injetei Descartes e Kant na veia. E garanto, crianças, dá um certo barato. Daqueles que, a principio, não incomodam os pais (eles só não podem ser da Universal).
Mas a filosofia não é a única que abre cadeados. Hoje percebi que a yoga também é boa nesse esporte. Pela primeira vez desde que pratico, há quatro anos, consegui fazer uma invertida sobre os ombros completa, encostando os pezinhos lá atrás no chão e esticando as pernas. Foi emocionante, meninos. Para imaginar a emoção é só reler a última frase e se tocar de que eu pratico há anos, o que quer dizer que meu alongamento ficou perdido em algum momento das minhas aulas de balé da infância e que não tenho a mesma malemolência dos indianos (muita gente não sabe, mas a verdade é que eles são feitos de borracha). A minha professora, por exemplo, não tem ossos. São grandes e maleáveis cartilagens se fingindo de sólidas. Tudo ilusão de ótica.
Quando mudei de perspectiva, sentindo que poderia cair lá atrás sem quebrar ao meio, fui tomada por uma certa epifania, tal qual nas aulas de filosofia. Os olhos marejaram mesmo fechados e o coração acelerou um pouquinho mais do que o normal. Era mais uma virada, mais uma afrouxada de linha. Prenúncio de novos tempos, de novos desafios, de infinitas outras possibilidades.
É por isso que tento estudar filosofia e pratico yoga entre um projeto e outro. Para enlouquecer com classe. E corpinho enxuto.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Lusco fusco

Faltou luz ontem. Por quatro horas. Acontece muito aqui no faroeste. Então fui tomar banho à luz de velas:

Sombra trêmula na parede
Raio X molhado
Medos e tecidos
ensaboados
Nesgas de luz
enxaguadas
Tempo descendo
sujo limpo
pelo ralo
Água olhos torneiras
fechados
Mão ágil e cega
mecânica escorregadia
quente seca
nua
viva.

Pra depois acabar tudo na toalha.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Bienal, eu fui

Fomos à Bienal. Como nos outros anos, usamos a nossa tática de guerra. Alvos certeiros, metas definidas, cartões de crédito em punho e... marchamos. Três horas e três pavilhões depois, eu tinha pena do meu marido só de olhar para as sacolas que ele carregava já com alguma dificuldade. Deixamos lá as calças, as meias e só não oferecemos as roupas íntimas porque havia muitas crianças circulando.
Mas, como em todos os anos, valeu a pena. Saí de lá com o meu projeto Filosofia mais do que alinhavado. Tenho Hume e Bacon e Galilei para me ocupar por um ano pelo menos. Desde que meu grupo de filosofia se desfez, venho procurando alternativas. Como as que encontro ou são caras ou fora do itinerário (morar na Barra tem disso), resolvi apelar para o autodidatismo. Veremos. Se eu sobreviver com sanidade prometo contar um pouco da experiência. Se não, idem.
Não sei se foram os gastos que me deixaram meio alterada ou se as câimbras das pernas comprometeram o fluxo sanguíneo do meu cérebro mas fato é que fiquei muito impressionada, dessa vez, com duas coisas. Uma era o alto-falante que anunciava eventos, promoções e outras coisas que não consegui entender no meio do meu transe. Por um bom tempo me perguntei se não estava no Mundial fazendo compras de mês e só me certifiquei de que tal horror não estava acontecendo porque belisquei o meu marido e tive a certeza de que sim, ele estava do meu lado. Quando me desfiz dessa impressão incômoda, estranhei o respeitável número de pessoas tirando fotos em estandes. Até com uma armadura do estande da Biblioteca do Exército tinha gente tirando foto. Valia tudo: cadeira da Biblioteca do Senado, árvore da Floresta de Livros, cartazes da Turma da Mônica adolescente e até o balão de sinalização da entrada. Isso porque não estou contando o gramado onde estavam os tais balões e que acolhia pessoas sentadas de pernas cruzadas e dentes direcionados a algum flash.
É nobre, claro que é nobre valorizar a Bienal a ponto de registrar a própria presença no evento, num clima assim “Bienal, eu fui”, mas não sabia que ela já tinha conquistado um status, vamos dizer, turístico. Estranho, muito estranho. Pelo sim, pelo não, da próxima vez vou incluir a máquina fotográfica no meu arsenal.